Adultecer | por Melissa Poletto

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Hoje meu texto vai ser sobre o doce, e doloroso, ato de se tornar adulto. Muitos poderão achar estranho o tema,  e acredito que a maioria das pessoas que leem o blog são adultos, mas acho válido compartilhar mais uma experiência que tive, já na fase adulta.

Nos tornamos adultos entre os 18 e os 21 anos. Eu saí da casa dos meus pais, definitivamente, aos 27 anos. Falo definitivamente porque eu já havia saído anteriormente, mas retornei por desafios profissionais, um deles o início da minha carreira de empreendedora, em 2003.

Vejo claramente o quanto resisti em adultecer. Sim, só conseguimos isso morando sozinhos, bancando nossa vida. Embaixo da asa” do pai e da mãe fica difícil, para não citar impossível, cumprir o ato de se tornar adulto. E aqui vale uma reflexão para quem é pai ou mãe: como estamos preparando nossos filhos para adultecer na fase de 18 a 21? Eu ando refletindo muito sobre isso.

Um ponto relevante é olhar a nossa caminhada. Desde que saí definitivamente da casa dos meus pais, houve uma grande evolução na minha vida, em termos de crescimento pessoal e material, e isso teve um preço que eu sei qual foi, porém meus filhos não sabem. Quando chegaram, tudo já estava estruturado, e aqui já há uma falha sistêmica . Eles precisam perceber que para terem conquistas, devem batalhar por isso e não receber dos pais.

Na minha descendência italiana, aprendemos o oposto: trabalhar para deixar para os filhos. Eis que isso não prospera, abre uma lacuna de valores. Quantos pais se sacrificam de diferentes formas para garantirum futuro para seus filhos. Como se tivéssemos este poder de garantir”. A única garantia que temos é a de educar para a vida. De mostrar aos nossos filhos que a resiliência, os valores e o desejo de aprender são o que os tornarão pessoas livres, sem amarras. Sem a necessidade de dar continuidade aos negócios da família e sem ter que, no futuro , cuidardos pais em retribuição a tudo que lhe foi dado. Meu ponto de vista é que ensinar aos filhos a importância de fazerem suas próprias escolhas e arcarem com as suas consequências é uma forma de ir para a vida e se orgulhar de quem são. É exatamente isso que os tornarão pessoas felizes.

Até aqui, dissertei sobre o meu olhar de mãe sobre os meus filhos. Agora, escreverei sobre o meu olhar como filha de Darci e Jane, a Cissa, que recebeu muito amor deles. Eles me garantiram estudos, comida, roupa, segurança, enfim, nunca me faltou nada. Eu vi o quanto esses dois batalharam para me proporcionar todas estas facilidades e sou muito grata a isso. Aqui, vemos o quanto a nossa ancestralidade de origem italiana bateu forte na veia deles.

Por todos estes cuidados e tantos outros, que fica difícil citar aqui pelo tamanho que o texto teria, sinto que eu tardei em adultecer. Que fique bem claro que isso não é uma crítica ao modo como fui criada e ensinada, apenas uma constatação que fiquei mais tempo do que deveria na esfera dos meus pais, e lá sou a Cissa, não a Melissa adulta. Cabe salientar, porém, que dentro da Melissa adulta, existe a Cissa (que é a minha criança) e que elas são indivisíveis

Feita essa ressalva, vou contar para vocês que venho nesse processo de adultecer a duras penas. Como é difícil a gente olhar para a vida e ver que nossos pais são finitos, que a segurança que eles nos deram por tanto tempo é finita, que as consequências de nossas decisões são única e exclusivamente nossas, que em muitos momentos procuramos segurança e, na verdade, o que necessitamos é coragem.

O primeiro grande passo para adultecer é olhar para nossos pais e parar de exigir deles o que eles não nos entregaram como a gente queria. Os filhos, quando crianças, criam uma imagem de que os pais são perfeitos e nos devem um amor que idealizamos. Isso permanece por muito tempo, entretanto, esta visão é infantil. Se você ainda carrega um baú de exigências para com seus pais, como se eles te devessem algo, PARE!!! Eles te deram a VIDA! E este presente, nós, como filhos, nunca poderemos retribuir, apenas honrar com a nossa prosperidade, construindo nossos sonhos e nos amando.

O segundo passo é aprender a lidar com a realidade exatamente como ela é. Sem neuras, sem buscar culpados, sem se vitimizar. Quer ser adulto, lide com a realidade! Adultos não se queixam, resolvem!

O terceiro passo é reconhecer que você é imperfeito, assim como seus pais. Reconheça que você é um eterno aprendiz, pois o perfeito não tem razão para viver, apenas o inacabado. E quando chegar a este passo, você eliminará de sua vida o julgamento. Dabe por quê? Porque ao se reconhecer como um ser imperfeito que é, você saberá que as outras pessoas também o são, e, assim, cessará o julgamento. Apenas lembrando que o julgamento está diretamente relacionado ao ego.

Quando tivermos dado os três passos com firmeza, isto é, sem questionamentos, apenas mantendo a passada com segurança e autovigilância, podemos afirmar que ADULTECEMOS. E a partir daqui, a vida começa a ter mais leveza, andaremos mais confiantes. Por isso, desejo que você se torne adulto logo. Pare de perder tempo com a sua criança birrenta. Mostre para ela que agora você, adulta, é quem cuida dela e atende as suas necessidades. Faça as pazes com a sua criança interior e receba a liberdade de ser quem você veio para ser.