Um Novo Olhar | Encerrando ciclos por Melissa Poletto

Vida

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A cada nova primavera, no meu caso, a cada novo verão, eu encerro um ciclo e reabro outro. Este novo ciclo, iniciado no último dia 24 de janeiro, começou diferente. São cinco verões sem a presença física da minha mãe e, agora, o primeiro sem a presença física do meu pai.

Sem dúvidas, este novo ciclo vem com um grande desafio: olhar através da morte, através da presença física. O desafio de perceber a presença de meus pais em cada célula minha, em cada gesto, em cada valor que carrego. Na semana passada, em uma reunião de trabalho, citei a minha facilidade em falar sobre o que eu acredito e a minha veia didática para ensinar questões técnicas. Sem dúvida, é o DNA do papai e da mamãe pulsando dentro do meu ser. E eu tenho que preservar isso. É assim que eles seguem vivendo dentro de mim.

No dia 25, fomos finalizar a limpeza do apartamento dos meus pais. Outro desafio, já no primeiro dia do novo ciclo. Quantas memórias, quantas lembranças. Encontrei cartas que eu desconhecia a existência e outras que me fizeram relembrar momentos marcantes. Isso sem falar nas inúmeras fotos que fomos encontrando em cada cantinho da casa.

Foi ali que pude compreender melhor o que é encerrar um ciclo. Encerrar ciclos não tem nada a ver com deixar para trás o que foi vivido. Tem a ver com valorizar tudo o que aconteceu do jeito que foi. Tudo que foi vivido, experienciado exatamente do jeito que aconteceu. Muitas vezes gostamos de inserir um e se” no que passou... Que grande ilusão! Este e se” não merece nossa energia. No lugar dele, deveríamos usar agora, sabendo disso, eu vou...” Isto é, com tudo que eu já vivi, quais os aprendizados, quais as dores que eu não quero repetir, qual o legado que vou deixar, quais alegrias quero reviver? No encerramento de um ciclo, não tente apagar o que passou, mesmo que doa. Tudo que você viveu está guardado em seu coração, deixe lá. E no novo ciclo, leve o melhor que pode fazer a partir deste novo aprendizado.

Viva o presente. Vivia o aqui e agora. Deixe o futuro te surpreender.

Novos ciclos acontecem quando encerramos os anteriores com amor e respeito. Agradeça tudo o que já aconteceu em sua vida até hoje. Tudo te levou a um ponto que você não estava, pode ter certeza.

Eu encerrei muitos ciclos já. E vejo que, às vezes, o novo ciclo também apresenta desafios. Porém, sempre me pergunto por que eu repito alguns padrões de ciclos já vividos. Que lição eu ainda tenho para aprender? Eu já me cobrei muito em relação a isso. Sobre querer aprender na velocidade que minha mente imagina ser o ideal; entretanto, hoje compreendo que a alma leva tempo.

A mente compreende que é só girar um botão e tudo estará resolvido. Pois é... a alma sabe que ela precisa de um tempo maior. O tempo em que a gente alinhe tudo o que recebemos em nosso DNA, em nossa ancestralidade, com o que nos é apresentado hoje. O tempo de assimilar que crescemos. Que não somos mais crianças indefesas que necessitam do cuidado dos pais para sobreviver. O tempo de assimilar as despedidas dos ciclos anteriores, de aceitar as derrotas como parte da vida imperfeita. Sim, falo isso, porque muitas vezes tendemos a acreditar em contos de fadas de uma vida perfeita, principalmente em um mundo digital que vende isso diariamente.

Então, meus querid@s leitores, compreendam que a alma precisa de tempo. Um tempo que tem duração variável de um para outro, até porque somos seres únicos. E este tempo varia de acordo com o alinhamento de nossas ações externas com os aprendizados na alma interna.

Que possamos encerrar nossos ciclos com sabedoria e respeito, para que a partir destes, se abram outros que vão expandindo nossa compreensão do que é viver.