O Rio de Janeiro continua vivo | Avanti Viagens

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Relatos de uma viagem em busca das raízes da cidade maravilhosa

 

Sempre tive uma certa resistência em viajar para o Rio de Janeiro. Nunca me imaginei caminhando pelas praias de Copacabana. Depois de algumas viagens pelo Brasil, a Camila, minha namorada e agente de viagens, me convenceu em conhecer a "cidade maravilhosa". Me esforcei para manter a mente aberta e desconstruir o estereótipo de uma cidade violenta para o turista.  Mas chegando lá, ainda não conseguia exorcizar aquele avatar do RJ, o malandro marrento que se aproveita dos recém-chegados. Essa teoria já caiu por terra depois do primeiro chope. Aos poucos, comecei a absorver a informalidade praticada pelos nativos. A primeira lição era aprender a relaxar e não me importar com o atraso da van do city tour. O guia turístico, um tiozinho muito simpático, me fez amar o Rio em poucos minutos. É tanta informação visual que você não sabe se olha ou fotografa. Sua mente começa a conectar tudo que você já viu e escutou sobre o Rio, aquela novela das Oito, as canções de Tom Jobim, a natureza vibrando bem na sua cara. 

Na primeira parada, subindo o Morro do Corcovado, tivemos uma experiência quase esotérica. Chegando ao pé do Cristo Redentor uma névoa espessa cobria a estátua por completo. Em poucos minutos a nuvem simplesmente se dissipou revelando as formas imponentes do Cristo e toda composição da paisagem com um fundo azul intenso. E se ainda restava dúvida da ação do criador, foi só pegar o bonde do Morro da Urca até o Pão de Açúcar. Foi a vista mais impressionante que já vi, que nenhuma foto pode registrar. Uma visão surreal de uma cadeia de montanhas, praias curvilíneas, floresta tropical, uma imensa constelação de embarcações e claro, as favelas, que numa analogia estranha, lembra os nossos parreirais, bordando morros e encostas.

Impossível não se envolver emocionalmente com essa cidade. Uma simples caminhada na praia é repensar seus hábitos, ter uma vida mais saudável. E como eles sabem cuidar do seu corpo, o seu maior bem. Mas se você é gordo ou magro, negro ou branco, todos ali são bem-vindos e, diga-se de passagem, um consumidor em potencial. Eles sabem vender o seu peixe fazendo do trabalho um estilo de vida. Mas eles sabem muito bem que se divertir é sim fundamental para a vida.

E eu quis saber como eles se divertiam. E os caminhos nos levaram à noite da Lapa. E assim,  adentramos no reduto da boemia carioca. O local mais democrático da cidade, com suas tribos, bares temáticos e gastronomia típica brasileira. Num momento você está num boteco ouvindo MPB, e há alguns passos dali, você está num bar de blues. Mas o nosso instinto nos levou por acaso ao lendário Circo Voador, a casa de shows que consagrou grandes nomes da música brasileira como Barão Vermelho, RPM e Paralamas do Sucesso. Foi uma surpresa encontrar o local ainda aberto, já que foi fundado em 1982.  Um grande público estava presente para o show de Hamilton de Holanda e orquestra tocando clássicos do cancioneiro popular e muito samba de gafieira. Ficamos num mezanino vendo tudo de cima sentindo a energia intensa desse santuário musical. Nós olhávamos um para o outro, maravilhados com todo aquele povo dançando em duplas os passos gafieira. Um Rio quase inocente, em contraste com a realidade do funk, por exemplo. Eu só conseguia dizer: "Isso é Brasil raiz". 

Em apenas alguns dias, fizemos uma imersão intensiva no cotidiano carioca. O suficiente para afirmar: o Rio de Janeiro continua vivo sim, com toda sua raiz, em todas suas vertentes. E pra mim, hoje, se o Rio de Janeiro fosse uma pessoa, um avatar, eu diria que, simplesmente, é alguém que sabe viver a vida. E quando tudo isso passar, quero voltar. Diante do caos sanitário e da polarização política, acredito que o melhor remédio para corpo e mente é viajar, criar novas memórias para substituir as ruins. Mas cuidado: a vontade de viajar é altamente contagiosa...ou melhor, contagiante.