Líder de si por Marciele Scarton | Coração de Gado

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*Tu já viu uma pessoa que não podia respirar?

Ou, por algum motivo,

 teve algum dia, que tu mesma não conseguiu respirar?

A minha resposta é “sim” para essas duas perguntas!

Por isso, a pandemia me fez lembrar

de uma história muito marcante de minha vida.

É algo bastante íntimo. Mesmo assim,

 senti o ímpeto de compartilhar contigo.*

 

           

            Hoje, eu não como coração de gado. Essa foi minha comida preferida quando criança. Mas nunca mais comi aquele coração de gado, com o qual eu tanto me deliciava aos domingos, depois que meu avô, Fernando, faleceu. Ninguém mais que conheci preparou um coração de gado como aquele que ele assava. Nem nas melhores churrascarias.

            Também nunca mais teve almoço de domingo, ao menos não como quando meu avô vivia. Não se falhava um domingo. É que, sem ele, muitas coisas, como os domingos com almoço, perderam a graça.

            Um dos últimos comentários que ouvi a respeito dele é que, num domingo, na UTI do hospital, ele chupou um pedaço de carne com tanta vontade que cortava o coração (de quem via a cena). Ele estava se alimentando apenas com líquidos por meio de uma sonda. Foi minha mãe quem falou isso para minha tia. Ou minha tia quem falou para minha mãe. Claro que não era para eu ter escutado. Sequer podia visitá-lo na UTI, porque eu era criança. Mas eu ouvi. Elas comentaram que ele suspirou e disse que a primeira coisa que faria quando voltasse para casa seria um churrasco para todos, como sempre fazia.

            Mas ele não voltou.  E se passaram 24 anos. Era outubro de 1996. 

            Meu avô teria hoje 78 anos. Tinha somente 54 quando se foi. Aos 44, aposentou-se por invalidez, devido ao problema de saúde. Quando ele morreu, diziam que tinha apenas um pedacinho de um dos pulmões.

            Natural do interior de uma cidade vizinha, mudou-se para essa, em que nossa família mora, no início dos anos 1970, em busca de melhores condições de vida. Empregou-se numa indústria que fabricava componentes automotivos, cujo pó químico da usinagem, na época, sem uso de equipamentos de proteção, ia-lhe direto aos órgãos, deduzo.

            Lembro-me que havia a expectativa de receber uma quantia de indenização para poder comprar um aparelho respirador que permitisse ao meu avô ter uma vida melhor em casa, livrando-se das internações hospitalares e também do botijão gigantesco e verde de oxigênio que ficava ao lado de sua cama.

            Só que a indenização tardava e a saúde de meu avô debilitava-se cada vez mais. E a aquisição passou a ser imprescindível. Ou se comprava o aparelho que custava R$ 8 mil à época, ou ele não respiraria mais. Era o preço de um carro popular zero, que minha avó não tinha, mas que, junto com as filhas e genros, deu jeito de comprar. O aparelho sequer chegou a ser usado, porque meu avô se foi por volta daqueles dias em que a encomenda havia chegado.

            Eu convivi com ele apenas onze anos de minha vida. Mas lembro-me de muitos momentos junto dele, como quando assistíamos ao Jornal Nacional juntos. Ele numa poltrona e eu na outra, igualzinha à dele. A cada intervalo comercial, nós nos ajeitávamos para ficar mais pertinho, mesmo com os braços das poltronas nos separando. Ele sempre falava que um dia eu estaria na TV, apresentando o jornal.

            Lembro-me bem também de quando os pulmões não lhe correspondiam mais. Eu passava as férias escolares na casa de meus avós maternos.  Na mala levava meus livrinhos, um vidrinho de Berotec e outro de Aerolin, e o aparelho de nebulização. Poucos sabem, mas eu fui uma criança doente. Tive crises agudas e sufocantes de asma até os 17 anos, na verdade, mas elas foram diminuindo conforme fui crescendo. Porém, dos oito aos onze anos foram as mais intensas, período em que os esforços de meu avô para respirar também foram os maiores.

            Falta de ar que nos aproximava. Minhas crises aconteciam geralmente por volta de 1h30 da manhã. Eu acordava e ia para o quarto onde ele dormia sozinho para não atrapalhar o sono de minha avó com a ofegante respiração. Ele estava sempre com a luz ligada quando eu entrava no quarto em cada madrugada. Já o encontrava preparando os dois aparelhos para as nebulizações, a minha e a dele. Eu sentava ao seu lado na cama e sentia suas pernas magras sob a colcha. Botávamos aquelas máscaras, por uns dez minutinhos, ficávamos nos olhando por cima delas, observando um ao outro por entre o vaporzinho que saía e assim nos fazíamos companhia. A maioria das vezes, ele sorria por trás da máscara.

            Ao seu lado, eu também observava o botijão verde de oxigênio que, na época, tinha umas três vezes minha altura e que ele dizia ser seu companheiro, o que me fazia pensar ser algo bom, ao final das contas. Eu geralmente adormecia e ele me acordava quando o remédio do aparelho secava. Eu, então, com as vias respiratórias livres e relaxadas, voltava para o quarto e dormia. Ele, eu achava que também, mas hoje não sei bem como é que ele passava o restante da noite.

            Eu nunca pensei que fosse deixar de fazer nebulização um dia. Como também nunca pensei que ele fosse morrer, apesar daquele cenário com a nebulização e com o botijão verde e assustador de oxigênio.

            Jornal na TV? Só nas disciplinas da faculdade eu apresentei.  Mas ele acertou em parte, me tornei jornalista. Só que daquelas que apresentam histórias no papel, em palestras ou na internet.

            Bem, na TV ou aqui, o certo é que ele não imaginou que um dia eu contaria essa história que o tem como personagem principal.

            E, sabe, acho que não como mais coração de gado por causa do gosto. Tem gosto de saudade.