Um Novo Olhar | A Vida pede Pausa por Melissa Poletto

Vida

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No primeiro dia do inverno, fiz meu primeiro teste de COVID-19 e positivei. Depois de 15 meses sem realizar nenhuma viagem de avião, fui atender um cliente em São Paulo e acredito que ali me contaminei com o tão temido vírus, pois exatamente nove dias após o meu retorno, tive o primeiro sintoma, uma dor de cabeça muito forte.

Naquele momento,começou o meu aprendizado. Ficar atenta aos sintomas do meu corpo que não são normais. No dia seguinte do primeiro sintoma, apresentei enjoo, vômito e dor de garganta, que prevaleceu no terceiro dia. Por esse motivo, no quarto dia, em 21 de junho, fui à farmácia e fiz meu teste, até porque naquela semana eu tinha um treinamento presencial.

Recebi a notícia e logo me preocupei em avisar todas as pessoas com quem eu havia entrado em contato na semana anterior. Avisei na academia, no salão de beleza e a minha tia que eu havia visitado. Ali, meu coração já ficou apertado, pensando que eu poderia ter contaminado outras pessoas.

Minha segunda preocupação foi buscar um tratamento e saber como proceder. Dispensei minha secretária e fui para o hospital. Por se tratar de um vírus,o há tratamento. A recomendação é tomar um paracetamol e, se sentir falta de ar, retornar ao hospital. Enfim, s dali e recorri ao consultório de um pneumologista, que me receitou uma combinação de cinco medicações, entre elas, um antibiótico.

Mesmo sabendo que nem todos são a favor de tratamento precoce, no meu caso, eu me senti mais segura em estar com as medicações. A recomendação era isolamento por sete dias, meu e de meus filhos, que moram comigo. Enviei o atestado para a escola e retomamos as aulas online.

Na segunda-feira seguinte, fui ao pneumologista e ele solicitou uma tomografia do pulmão. Caso apresentasse alguma lesão, ele me explicou que eu teria que cumprir isolamento de 20 dias a partir do primeiro sintoma. Fiz o exame e, mesmo eu me sentindo bem e já tendo concluído o tratamento com o antibiótico, apareceu uma lesão no pulmão. Portanto, mais dias de isolamento, eu e as crianças. Novo atestado e seguimos em home office e home schooling.

Mas o que quero compartilhar com essa experiência foi o medo que senti desde o dia da confirmação do meu teste. Muitas pessoas entraram em contato e compartilharam suas experiências, muitos me alertaram que a partir do 10º dia, as coisas poderiam piorar. Eu tive sintomas leves, o único mais relevante foi a perda de paladar, que ainda não retornou. Mas, mesmo assim, eu estava lidando com o incerto, com um vírus que não brinca em serviço. Que levou muitas vidas, retirou do convívio uma mãe, um pai, um filho, uma filha, um avô, uma avó, etc. E eu agora estava tendo que lidar com este medo da insegurança, do não ter controle, do que poderia acontecer.

Muitas vezes me perguntei: e se eu me sentir mal no meio da noite? E se lá no 10º dia eu piorar? E se eu tiver que ser internada? E entubada? Enfim, muitas dúvidas. Eu me apeguei às minhas medicações, à fé e ao controle mental. Comecei a aplicar meus aprendizados da inteligência emocional, e o principal foi: lide com a realidade como ela é, e não como ela poderia ser. Não fiquei deixando minha mente me sabotar e potencializar o que eu não estava vivendo.

Sim, a ansiedade aumentou, a insônia bateu, mas eu fiz muitos exercícios de respiração e de manter a calma, para lidar com as coisas como elas se apresentavam. Funcionou! Mas também compreendo quem se desespera e entra em pânico, pois realmente é difícil.

Vou falar um pouco sobre o isolamento. Como é difícil lidar com as privações de coisas normais do dia a dia, como tirar o lixo e fazer mercado. Isso está inserido de forma tão dinâmica no meu dia a dia, que perder me fez refletir sobre liberdade. Se tem algo que eu valorizo é a minha liberdade. E aqui vale a reflexão de como somos vulneráveis. Como a vida vem e pede pausas. Como não temos controle de nada. Como precisamos da ajuda dos outros. E como tudo isso pode se tornar um grande aprendizado. Se tem algo que eu aprendi diante da pandemia, é que tudo o que acontece na minha vida é minha responsabilidade, e que tudo acontece por um motivo. Estar com COVID-19 é algo que eu precisava viver.

E mesmo parecendo clichê, eu pratiquei muito a gratidão nesses dias. Por ter vizinhos que fizeram mercado para a minha família, pelo meu irmão que fez compras, farmácia e levou material para a escola, pelo zelador que retirava meus lixos e me abastecia de lenha nos dias frios, por poder estar com quem eu amo, por poder enfrentar meu medo e ver que ele é menor quando lidamos com a realidade. Como é importante saber que posso contar com outras pessoas. O que parece pouco para alguns é muito para quem recebe.

Sim, eu estou contando os dias para ter minhas pequenas liberdades de volta. Assim como estou contando os dias para poder me vacinar. E essa pausa foi importante para eu valorizar todas as pequenas coisas que estão presentes na minha vida. Porque a vida está acontecendo e ela é o meu maior presente.